Por intermédio dos espaços virtuais que os exprimiriam, os coletivos humanos se jogariam a uma escritura abundante, a uma leitura inventiva deles mesmos e de seus mundos(...) poderemos então pronunciar uma frase um pouco bizarra, mas que ressoará de todo seu sentido quando nossos corpos de saber habitarem o cyberspace: “Nós somos o texto.” E nós seremos um povo tanto mais livre quanto mais nós formos um texto vivo.
Pierre Lévy

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

SOCIEDADE DE CONTROLE X SOCIEDADE DISCIPLINAR

Em tempos de constante vigilância, por meio de aparelhos eletrônicos e tecnologias que nos permitem ficar "on line" o tempo todo, a discussão acerca do controle social é importante. A discussão sobre a melhor forme de educar e normatizar a vida de crianças, adolescentes e jovens não surgiu com a "lei das palmadas", entretanto a discussão dessa lei é uma ocasião interessante para questionar quais são os novos meios disciplinadores do comportamento humano, sobretudo dos mais jovens.

Durante os séculos XIX e XX, o capitalismo priorizou uma sociedade disciplinar, centrada na casa, na escola, na igreja, na fábrica, na prisão. Para Michel Foucault, tratava-se de uma sociedade disciplinar hierarquizada, conduzida pela constante vigilância e pelo controle do tempo e do comportamento por um "superior": o pai, o professor, o patrão.

 O século XXI inaugurou uma outra forma de controle, aparentemente mais leve e  substancialmente mais eficaz: o controle internalizado no medo da exclusão, da segregação, da condenação pelo olhar dos outros. Gilles Deleuze atribui à sociedade escópica (na qual todos veem e são vistos) um dos principais propulsores desse estado de coisas. Não se trata mais da presença física de uma autoridade disciplinar nem dos limites de um espaço que requer determinado comportamento (como a fábrica, a escola, a igreja). As cobranças penetram na alma do indivíduo que se sente coagido a se comportar de determinada forma para não ser condenado.

Segue um artigo de opinião sobre o tema e um artigo científico - escrito em português de Portugal - para quem deseja saber mais sobre o tema. Se não quiser lê-lo integralmente, veja os tópicos que forem mais interessantes para seu estudo.

Publiquei aqui também um artigo muito interessante do psicanalista Renato Mezan sobre os perigos de obedecer à vontade de outrem.




Panóptico. Criação de Jeremy Benthan, pensador influente do Iluminismo. Trata-se de uma construção de arquitetura em formato de anel. No centro há uma torre. Nesta há aberturas (janelas) para o interior do anel. A parte periférica é dividida em espaços de enclausuramento (celas) que tomam toda a largura da construção. Nas celas há duas janelas (uma que corresponde às da torre e outra dando ao exterior). Pela janela exterior, a luz atravessa a sala. Na torre há um vigia que não é visto, mas que se sabe de sua existência. Com o efeito da contraluz, pode-se perceber a silhueta dos que estão nas celas. O princípio do panópticon é a concentração de uma visibilidade total dos corpos por um mecanismo que instala uma dissociação entre quem vê e quem é visto e o efeito de luz que faz com que os corpos apareçam mesmo involuntariamente. O panóptico é primeiramente uma organização arquitetônica para a vigilância para depois se tornar um dispositivo efetivo de poder, posto que estabelece uma rede entre os vários elementos (discursos, instituições, construções urbanas/arquitetônicas, leis, regras, medidas administrativas, etc) que configuram a vigilância completa dos corpos com implementações econômico-políticas na sociedade.
Tevê. É um aparelho eletrônico. Funciona a partir de pontos luminosos eletromagnéticos que se compõem formando as imagens. Ficam espaços vazios entre os vários pontos, o que faz com que as imagens não sejam nítidas. Tende a ser um médium, um transmissor eletrônico, de comunicação/informação formador de opinião pública. Tem sua estrutura organizada através de horários, faixa etária, censura, assuntos específicos concentrados no entretenimento (cultura) e informação (notícias de interesse público). É pública, pois faz parte dos bens públicos do Estado. Por um período determinado é concedido a organizações ou a empresários a concessão que dá o direito de transmissão através de canais abertos. Entretanto, os donos temporários das concessões fazem dela um modo de produção, uma vez que estabelecem contratos com empresas privadas que modelam a programação televisiva determinando uma formação social e econômica própria da produção centralizadora capitalística.
Sociedade Disciplinar. Conceito criado pelo filosofo Michel Foucault. Série de dispositivos disciplinares que acionam mecanismos de poder através de espaços de enclausuramento e técnicas de vigilância. Estes espaços em reciprocidade com a vigilância constituem formas fixas e implementações econômico-políticas. Na sociedade disciplinar os corpos são docilizados tornando-se exploráveis economicamente e impotentes politicamente.
Médium Televisivo: Vigilância e Espaço Disciplinar
O que caracteriza a vigilância é menos a certeza de que se está sendo vigiado do que a sensação de estar constantemente perseguido por um “espectro” invisível. O médio televisivo realiza a dissociação entre quem vê e quem é visto. O tele-espectador vê a programação da tevê, mas não é visto por ela. Se a comunicação/informação deve estabelecer uma troca entre um falante e um ouvinte, o médio televisivo realiza a hegemonia do falante sobre o ouvinte. Não há a troca que estabeleceria a reciprocidade entre os pólos necessários para a comunicação/informação. A tevê, portanto, vigia sem ser vista, pois age como dona da opinião pública.
O médium televisivo se configura como o vigia do panópticon (panópticon televisivo) que tudo vê, sem ser visto, à sua volta. Na sua periferia estão os corpos enclausurados em suas instituições (famílias, escolas, fábricas, hospitais, bares, pontos públicos de lazer, etc.), ela vigia e disciplina os corpos. A tevê aplica sua vigilância fazendo com que o próprio tele-espectador seja seu vigilante. Como a sua estrutura determina classificações, identidades, divisões e serializações, o tele-espectador é espreitado a todo momento pelas pesquisas de opinião pública que vão formando o perfil adequado para o aumento do ibope (medida televisiva que mensura a relação entre redes de tevê e mercado). O médium televisivo mantém uma vigilância ao nível da economia de mercado à medida que se apresenta como grande vitrine da sociedade de consumo. Para tanto, a tevê centraliza sua programação na propriedade privada, em notícias rasteiras, nos meios de produção e em comunicação/informação enquanto síntese da realidade. A tevê vigia devido manter uma centralização que rompe com a comunicação/informação e se fecha no modo de produção capitalístico agrupando consumidores de forma direta e indireta. A tevê não nos olha e impede o olhar (corte das imagens constituídas e criação de novas maneiras de ver o mundo) do tele-espectador.
O médium televisivo age de forma a disciplinar os corpos. Sua própria estrutura (e aqui não importa o conteúdo vinculado) é um espaço fixo fechado. Seus programas são direcionados segundo a lógica do capital que implica em uma realidade sintetizada em uma ordem econômica-social própria da relação produtor-consumidor. E como o médium televisivo não trata a opinião pública como um acontecimento onde todos falam e são ouvidos, como ela tenta escamotear o movimento intensivo da efetividade (sem consegui-lo), toda a sua forma é para aumentar a exploração econômica dos corpos e impotencializá-los politicamente. O espaço televisivo não é o espaço físico da sua tela ou mesmo de seus bastidores, mas um um espaço disciplinar que implementa incorporações do poder, pois isola, hierarquiza, classifica e identifica com o objetivo de tornar os indivíduos capazes de realizar funções para o Estado.



http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/momentos/sociedade%20disciplinar/index.htm

Trabalho realizado por Ana Isabel Lopes e Sónia Santos, no âmbito da cadeira de História e Filosofia da Educação leccionada por Professora Olga Pombo.


Introdução
Um medo assombrou a Europa, na segunda metade do séc. XVIII. Os cemitérios, conventos, hospitais e prisões suscitavam uma onda de desconfiança e rejeição. Eram ambientes escuros que impediam a visibilidade das coisas, das pessoas e das verdades. Estes ambientes eram incompatíveis com a nova ordem política. Pelo que era necessário eliminar esta obscuridade e escuridão, de modo a dar lugar à transparência e visibilidade.
Geremy Bentham

O problema das prisões, foi o que tomou maior ênfase. Era tema de estudo e discussão na sociedade da época. A situação de “escola de vício e de crime” e lugar “desprovido de higiene” forçou a procura de um projecto de reorganização das prisões.

O Panóptico de Geremy Bentham foi caracterizado como a “figura arquitectural” ideal.

Segundo Foucault o Panóptico despertou interesse, pelo facto de ser aplicável a muitos domínios diferentes. Não se tratava apenas de uma prisão. O Panóptico, é um princípio geral de construção, um dispositivo polivalente de vigilância, uma máquina óptica universal das concentrações humanas.


Michel Foucault
É polivalente em todas as suas aplicações: serve para emendar os prisioneiros, mas também para cuidar dos doentes, instruir os escolares, guardar os loucos, fiscalizar os operários, fazer trabalhar os mendigos e ociosos.

Foucault,(1997),pag:170

Bentham concebeu o Panóptico não com um único destino mas, com algumas adaptações serviria tanto para prisões quanto para hospitais, escolas e fábricas.

Foucault vê o Panóptico como uma “diabólica peça de maquinaria”, um microcosmo idealizado da sociedade do séc. XIX. Onde a disciplina se torna institucionalizada nas prisões, nas escolas, nos hospitais e nos asilos. Esta age mediante a interiorização de uma sujeição que era implantada nas mentes através da vigilância. Servia para corrigir os prisioneiros, para cuidar dos doentes, instruir os estudantes, guardar os loucos, fiscalizar os operários, fazer trabalhar os mendigos e ociosos. Em cada uma das suas aplicações, permitia aperfeiçoar o exercício do poder. O Panóptico constituiu ou ajudou a construir, uma forma de poder no final do séc. XVIII. Este poder, passou a imperar nas prisões, hospitais, fábricas, conventos e escolas, aperfeiçoando gradualmente o seu alcance até aos indivíduos. Ao contrário da escuridão das masmorras ou da punição exemplar transformada em espectáculo, o poder disciplinar projecta luz sobre cada condenado, baseando-se na visibilidade, na regulamentação minuciosa do tempo e na localização precisa dos corpos no espaço. Isto possibilita o controle, o registro e a acumulação de saber sobre os indivíduos vigiados, de forma a torná-los dóceis e úteis à sociedade. Instaura-se assim uma nova tecnologia do poder, que se torna cada vez mais complexa e abrangente. Passa-se então do Panóptico ao panoptismo.

O panoptismo é o princípio geral de uma nova “anatomia política”.O seu objecto e finalidade não são a relação de soberania, mas as relações de disciplina. Desta forma, Foucault observa a formação de uma sociedade disciplinar, situada nos séc. XVIII e XIX, que atingiu o seu apogeu no início do séc. XX.

Todavia, a sociedade disciplinar, que se fundamentava na organização dos grandes meios de confinamento, família, escola, caserna, fábrica, hospital e prisão, atravessou uma crise. Depois da Segunda Grande Guerra o modelo emblemático das sociedades disciplinares começa a ser substituída por um novo modelo. Constituíam-se novas formas de sociabilidade e de subjectividade num momento que se marca pela passagem de uma sociedade disciplinar para uma sociedade de controle.

Em “Vigiar e Punir”, Foucault define os mecanismos de sujeição do corpo como uma tecnologia. Há um saber sobre o corpo e um controle sobre as suas forças. Na sociedade de controle, surgem novos mecanismos de vigilância, com poder suficiente para tornar o indivíduo incapaz de esboçar qualquer reacção.

No Panóptico, o controle faz-se por meio da visibilidade total e permanente dos indivíduos. Assim, este dispositivo tornou-se o paradigma dos sistemas sociais de controle e vigilância total. Nas sociedades actuais, o princípio do Panóptico continua plenamente activo mas agora exerce-se nas novas formas de controle implementadas pelas novas tecnologias. A quase omnipresença destas, traz consigo novas práticas e novas relações de poder. Por possuírem apenas uma parcela mínima de materialidade, não necessitam de construções específicas. Os novos dispositivos são instalados no interior de todos os espaços já existentes.
Na sociedade disciplinar o observador está presente e em tempo real a observar e a vigiar os indivíduos. Nasociedade de controle esta vigilância torna-se rarefeita e virtual. Todavia, o efeito causado nos indivíduos parece ser o mesmo: são ao mesmo tempo visíveis e incapazes de ver. Tanto nas sociedades disciplinares, quanto nas sociedades contemporâneas, os indivíduos sentem-se controlados pela força penetrante do olhar, tornando-se assim “dóceis”e “úteis”.
Cabe aqui colocar uma questão:
Será que os indivíduos modernos, têm consciência do carácter subordinante dominador e insuportável da nova forma de vigilância? Ou consideram-na como natural?

Sociedade Disciplinar

Mudanças sociais ocorridas no séc. XVIII e XIX levaram a alterações do jogo do poder, que foi sendo gradativamente substituído pelo que Foucault denomina de sociedades disciplinares, as quais atingiram o seu apogeu no séc. XX. A passagem de uma forma de dominação a outra ocorreu quando a economia do poder percebeu ser mais eficaz e rentável “vigiar” do que “punir”.

Duas imagens, portanto da disciplina. Num extremo, a disciplina - bloco, a instituição fechado, estabelecido à margem, e toda voltada para funções negativas: fazer parar o mal, romper as comunicações, suspender o tempo. No outro extremo, com o panoptismo, temos a disciplina - mecanismos: um dispositivo funcional que deve melhorar o exercício do poder tornando-o mais rápido, mais leve, mais eficaz, um desenho das coersões subtis para uma sociedade que está por vir. O movimento que vai de um projecto ao outro, de um esquema da disciplina de excepção ao de uma vigilância generalizado, repousa sobre uma transformações histórica: a extensão progressiva dos dispositivos de disciplina ao longo dos séculos XVII e XVIII, sua multiplicação através de todo o corpo social, a formação do que se poderia chamar grosso modo a sociedade disciplinar.

Foucault, (1997), pag:173

Coube às sociedades disciplinares organizar os grandes meios de confinamento, os quais tinham como objectivo concentrar e compor, no tempo e no espaço, uma forma de produção cujo efeito deveria ser superior à soma das partes. O indivíduo não cessava de passar de um espaço fechado ao outro: família, escola, fabrica, universidade e eventualmente prisão ou hospital.

A existência de mecanismos disciplinares é anterior ao período que Foucault denominou como sociedade disciplinar, mas antes existiam de forma isolada, fragmentada. O padrão de visibilidade das sociedades disciplinares projectou-se no interior dos prédios das instituições, que passaram a ser construídos para permitir o controle interno.

Foucault afirma que as instituições não têm essência ou inferioridade, nem são fontes de poder. São mecanismos operatórios práticos que fixam relações. Têm necessariamente dois pólos: aparelhos e regras. O pólo negativo compreende a táctica do poder em sujeitar e reprimir. O pólo positivo consiste em produzir, mobilizar tipos de forças que constituem o poder, provocando um corpo - a - corpo. Quanto mais poder conseguir produzir, mais deverá sujeitar e administrar. Nesse confronto retira-se um efeito útil, uma notável solução, diria Foucault: o aparecimento da disciplina. A disciplina dissocia o poder desse corpo - a - corpo e reduz o perigo da inversão de um equívoco dessa polarização.

Ao estudar o nascimento da prisão, Foucault observa que passou por três fases: primeiramente, nas sociedades soberanas, no séc.XVII, existe paralelamente a outras administrações de punição, como o manicómio e o asilo. Com a queda da soberania, a lei e o poder adquirem uma forma regular de administração, isto é, a sua transmissão e continuidade ganham nova forma, quando acontece a estatização da justiça penal.

Como Foucault observa a prisão não é então uma pena e direito, não fez parte do sistema penal dos séculos XVII e XVIII. Os legistas são perfeitamente claros a este respeito. Estes afirmam que, quando a lei pune alguém, a punição será a condenação à morte, a ser queimado, a ser esquartejado, a ser marcado, a ser banido, a pagar uma multa, etc. a prisão não é uma punição.

Quando o indivíduo perde o processo e é declarado culpado, deve uma reparação à sua vítima, isto é, exige-se do culpado a reparação da ofensa que cometeu contra o soberano, a lei e o poder monárquico. Assim é que aparecem os mecanismos da multa, da condenação à morte, do esquartejamento, do banimento etc.

O segundo momento de consolidação da prisão ocorre no final do séc. XVIII e inicio do séc.XIX. É caracterizada pela reforma e reorganização do sistema judiciário e penal nos diferentes países da Europa e do mundo. Nesse momento, ao contrario do período anterior, a prisão passa a difundir-se em todas as direcções, por se efectuarem em alto grau as exigências do diagrama da disciplina, vencida, obviamente a má reprodução que vinha do seu papel precedente.

Foucault denomina esse período de sociedade disciplinar, pois traz como características essenciais a distribuição dos indivíduos em espaços individualizados, classificatórios, combinatórios, isolados, hierarquizados, capazes de desempenhar funções diferentes segundo o objectivo especifico que deles exige. Estabelece uma sujeição do individuo ao tempo, com o objectivo de produzir com o máximo de rapidez e eficácia.

A vigilância também se expressa como um dos seus instrumentos de controle, de maneira contínua, perpetua e permanente.

No âmbito do direito penal, passa-se a enunciar os crimes e os castigos que preconizam o controle e a reforma psicológica e moral das atitudes e do comportamento dos indivíduos, diferente daquela prevista no séc. XVIII, que visava tão somente a defesa da sociedade.

Ressalta Foucault que a prisão, nesse momento remete a palavras e conceitos completamente diferentes, como a delinquência e o delinquente, que exprimem uma nova maneira de enunciar as infracções, as penas e os sujeitos.

A terceira fase consiste na reforma penitenciária, pois destitui a prisão da sua exemplaridade, fazendo-a voltar ao estado de agenciamento localizado, restrito e separado.

As técnicas disciplinares serão substituídas pelo modelo técnico de cura e normalização. Funcionará como terapêutica da rectificação do individuo, e a sentença judicial será inscrita entre os discursos do saber, implicando num baixo grau de exigências do diagrama da disciplina.

Nesse estudo topológico de interrogar as formações históricas, Foucault descobriu uma engenharia que atravessa quase meio século, praticamente despercebida, enquanto estratégias ou táctica de poder. Aparece contudo, como uma mecânica de observação individual, classificatória e modificadora do comportamento, uma arquitectura formulada para o espaço da prisão, ou para outras administrações, tais como: a fabrica, a escola, o manicómio. Essa maquinaria era o Panóptico.

O Panóptico é a utopia de uma sociedade e de um tipo de poder que é, no fundo, a sociedade que actualmente conhecemos – utopia que efectivamente se realizou. Este tipo de poder pode perfeitamente receber o nome de panoptismo. Vivemos numa sociedade onde reina o panoptismo.

Com o Panóptico vai-se produzir algo totalmente diferente. Não há mais inquérito, e sim vigilância e exame. O Panóptico teve uma tríplice função a vigilância, o controle e a correcção.

Segundo Foucault (1990), o poder é uma prática social e, por isso mesmo, é constituído historicamente e articula-se com a estrutura económica. O que Foucault chamou microfísica do poder significa tanto um deslocamento do espaço de análise quanto ao nível que este se efectua. De acordo com a sua categorização, as sociedades e os seus respectivos regimes de visibilidade podem ser divididos em: sociedades de soberania, onde o rei ou senhor exercia o poder, por meio de uma vigilância externa e geral; sociedade disciplinar, na qual as instituições são um dos maiores dispositivos de visibilidade, principalmente com relação ao funcionamento dos operários institucionais; e sociedade de controle, veio substituir a sociedade disciplinar, na qual ocorre a implementação progressiva e dispersa de um novo regime de dominação, ou seja, o exercício do poder à distancia.

Actualmente, encontramo-nos numa crise generalizada de todos os meios de confinamento da sociedade disciplinar e assistimos à instalação de uma sociedade que controla à distância. Desse modo, a crise das instituições modernas representa a implantação progressiva e dispersa de um novo regime de dominação. A lógica da sociedade disciplinar é analógico, ou seja, descontinua e diferenciada em cada confinamento, enquanto a da sociedade de controle é numérica e constante.

Panóptico
Ao estudar a "Sociedade Disciplinar", Foucault constata que a sua singularidade reside na existência do Desvio diante a Norma. E assim, para "normalizar" o sujeito moderno, foram desenvolvidos mecanismos e dispositivos de vigilância, capazes de interiorizar a culpa e causar no indivíduo remorsos pelos seus actos.

Dentre os dispositivos de vigilância do início do século, podemos destacar o Panóptico, de Jeremy Bentham, um mecanismo arquitectural, utilizado para o domínio da distribuição de corpos em diversificadas superfícies (prisões, manicómios, escolas, fábricas).

O Panóptico era um edifício em forma de anel, no meio do qual havia um pátio com uma torre no centro. O anel dividia-se em pequenas celas que davam tanto para o interior quanto para o exterior. Em cada uma dessas pequenas celas, havia, segundo o objectivo da instituição, uma criança aprendendo a escrever, um operário a trabalhar, um prisioneiro a ser corrigido, um louco tentando corrigir a sua loucura, etc. Na torre havia um vigilante.





Como cada cela dava ao mesmo tempo para o interior e para o exterior, o olhar do vigilante podia atravessar toda a cela; não havia nenhum ponto de sombra e, por conseguinte, tudo o que o indivíduo fazia estava exposto ao olhar de um vigilante que observava através de persianas, de postigos semi-cerrados de modo a poder ver tudo sem que ninguém ao contrário pudesse vê-lo.

O panoptismo corresponde à observação total, é a tomada integral por parte do poder disciplinador da vida de um indivíduo. Ele é vigiado durante todo o tempo, sem que veja o seu observador, nem que saiba em que momento está a ser vigiado. Aí está a finalidade do Panóptico,

...induzir no detido um estado consciente e permanente de visibilidade que assegura o funcionamento autoritário do poder. Fazer com que a vigilância seja permanente nos seus efeitos ... que a perfeição do poder tenta tornar inútil a actualidade do seu exercício...

Foucault,(1997),pag:166

Dissociando-se o par ver/ser visto, automatiza-se e desinvidualiza-se o poder.

O Panóptico organiza espaços que permitem ver, sem ser vistos, portanto, uma garantia de ordem. Assim, a vigilância torna-se permanente nos seus efeitos, mesmo que não fosse na sua acção. Mais importante do que vigiar o prisioneiro o tempo inteiro, era que o mesmo se soubesse vigiado. Logo, não era finalidade do Panóptico fazer com que as pessoas fossem punidas, mas que nem tivessem a oportunidade para cometer o mal, pois sentiriam-se mergulhadas, imersas num campo de visibilidade.

Em suma, o Panóptico desfaz a necessidade de combater a violência física com outra violência física, combatendo-a antes, com mecanismos de ordem psicológica.

A essência do Panóptico reside na centralidade da situação de inspecção, ou na construção, sem duvida ficcional, de uma espécie de "inspector central", omnipotente, omnipresente e, principalmente, omnividente.

O Panóptico (...) tem seu principio não tanto numa pessoa como numa certa distribuição concertada dos corpos, das superfícies, das luzes, dos olhares; numa aparelhagem cujos mecanismos internos, produzem a relação na qual se encontram presos os indivíduos (...) Pouco importa, consequentemente, quem exerce o poder. Um indivíduo qualquer, quase tomado ao acaso, pode fazer funcionar a máquina: na falta do director, sua família, os que o cercam, seus amigos, suas visitas, até seus criados (...) Quanto mais numerosos esses observadores anónimos e passageiros, tanto mais aumentam para o prisioneiro o risco de ser surpreendido e a consciência inquieta de ser observado.

Foucault, (1997), pag:167

Quem está submetido a um campo de visibilidade, e sabe disso, retoma por sua conta as limitações do poder; fá-las funcionar espontaneamente sobre si mesmos; inscreve em si a relação de poder na qual ele desempenha simultaneamente os dois papeis: torna-se o princípio da sua própria sujeição.

Foucault, (1997), pag:168

O Panóptico (...) deve ser compreendido como um modelo generalizável de funcionamento; uma maneira de definir as relações de poder com a vida quotidiana dos homens. Bentham sem duvida o apresenta como uma instituição particular, bem fechada em si mesma. muitas vezes se fez dele uma utopia do encarceramento perfeito.

Foucault, (1997), pág:169

Para Bentham, qualquer punição deve ser encarada antes de tudo como espectáculo; importa menos o seu efeito sobre quem é castigado, do que as impressões que recebem todos aqueles que vêem o castigo ou que dele são informados.

Na sua prisão panóptica, ocasionalmente se escutavam gritos horríveis - só que não de prisioneiros, mas de pessoas contratadas exclusivamente para semelhante propósito. A punição aparente, fictícia, produziria um bem para todos - a ordem, a disciplina - ao mesmo tempo que não produzia nenhum mal, exactamente porque o "mal" produzido teria sido forjado.

Todo o Panóptico, na verdade, é estruturado como uma ficção. É precisamente a aparente omnipresença do inspector que sustenta a perfeita disciplina no Panóptico, controlando os movimentos de transgressão entre os internos. Entretanto, como a omnipresença não pode ser um atributo humano, resta forjá-la, simulá-la, quer por rondas aleatórias, quer pela arquitectura do lugar, que permite a cada um dentro das celas ser facilmente visto, ao mesmo tempo em que dificilmente vê quem o vê.

Em última análise, o inspector perfeito, o inspector omnipresente, é aquele que nunca aparece - mas que pode aparecer a qualquer instante. O inspector perfeito é, enfim, uma voz, um olho, um ofício carimbado, uma sombra indistinta no fundo do corredor.

Neste tipo de instituições, nós somos vistos, ou pensamos que somos vistos, sem vermos aquele que vê, nós escutamos uma voz, sem vermos o dono da voz. O Panóptico deve ser governado por um olhar e por uma voz desconectados do seu portador. O inspector torna-se, então, uma espécie de fantasma. Em última instância, é uma entidade de ficção - ele não existe. Justamente por isto, ele pode provocar um medo superior ao de um guarda real, por mais cruel que esse guarda fosse.

A utopia panóptica - em si mesma uma obra de ficção - gerou outras tantas obras de ficção. Muitos livros tematizaram o Panóptico, em geral para repudiá-lo, ou exorcizá-lo. Dentre eles, o romance mais conhecido é 1984, de George Orwell, em que a figura omnipresente e omnividente (entretanto inexistente) do inspector geral toma a forma do Big Brother, enfim, de um grande olho que pode ver todos os recantos. Orwell escreveu-o em 1948, invertendo os dois últimos algarismos para situar a sua utopia negativa.

O esquema Panóptico pode ser utilizado sempre que se deseja impor uma tarefa ou um comportamento a uma multiplicidade de indivíduos.

O Panóptico (...) permite aperfeiçoar o exercício do poder. E isto de várias, maneiras: porque pode reduzir o número dos que o exercem, ao mesmo tempo que multiplica o número daqueles sobre os quais é exercido (...) Sua força é nunca intervir, é se exercer espontaneamente e sem ruído (...) Vigiar todas as dependências onde se quer manter o domínio e o controle. Mesmo quando não há realmente quem, assista do outro lado, o controle é exercido. O importante é (...) que as pessoas se encontrem presas numa situação e poder de que elas mesmas são as portadoras (...) o essencial é que elas se saibam vigiadas.

Focault, (1997), pág: 170

As instituições panópticas são leves e fáceis de manipular, utilizam princípios simples de correcção e adestramento. É uma espécie de campo experimental de poder, assegura a sua economia, a sua eficácia e o seu funcionamento.

A base desta arquitectura institucional é o exame contínuo (a prova, o teste), para controlar "à nascença" as causas dos desvios. O sujeito torna-se culpado (ou "burro", ou louco, ou doente) até prova (exame) em contrário. Em todos os dispositivos de disciplina, o exame, então, tem de ser altamente ritualizado.

O exame combina as técnicas da hierarquia que vigia e as da sanção que normaliza. É um controlo normalizante, uma vigilância que permite qualificar, classificar e punir. estabelece sobre os indivíduos uma visibilidade através da qual eles são diferenciados e sancionados. É por isso que, em todos os dispositivos de disciplina, o exame é altamente ritualizado. Nele vêm-se reunir a cerimónia do poder e a forma da experiência, a demonstração da força e o estabelecimento da verdade (...) A superposição das relações de poder e das de saber assume no exame todo o seu brilho visível.

Focault, (1997), pág: 154

Disciplina

No século XVIII o corpo é descoberto enquanto uma fonte inesgotável de poder, enquanto máquina, sistema e disciplina. É simultaneamente dócil e frágil, algo possível de manipular e facilmente adestravel, enfim, susceptível de dominação. A disciplina dos séculos XVII e XVIII é diferente de todo o tipo de massificação anteriormente aplicado, foge largamente dos princípios de escravização e de domesticidade das épocas clássicas, é uma utilização do corpo para determinados fins. Ela fabrica corpos dóceis, submissos, altamente especializados e capazes de desempenhar inúmeras funções.

A disciplina aumenta a força em termos económicos e diminui a resistência que o corpo pode oferecer ao poder. Daí que o corpo tenha sido fonte de utilização económica e só se torne força útil se, ao mesmo tempo, é produtivo e submisso. Essa sujeição não é obtida só pelos instrumentos da violência ou da ideologia, pode muito bem ser directa, física, usar a força contra a força sem, no entanto, ser violenta. Pode ser calculada, organizada de forma subtil, não fazer uso de armas nem do terror e, no entanto, continuar a ser disciplina física. Os métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante das suas forças e lhe impõem uma relação de docilidade - utilidade, são aquilo a que podemos chamar as disciplinas.

Processos disciplinares existiam já nos conventos, nos exércitos, nas oficinas... Mas é so no decorrer dos séculos XVII e XVIII que as disciplinas se tornam formulas gerais de dominação.

"O momento histórico das disciplinas é o momento em que nasce uma arte do corpo humano, que visa não unicamente o aumento das suas habilidades, mas a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto mais útil é. Forma-se então, uma politica de coerções que consiste num trabalho sobre o corpo, numa manipulação calculada dos seus elementos, dos seus gestos, dos seus comportamentos. O corpo humano entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe. A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, os chamados "corpos dóceis". A disciplina aumenta as forças do corpo (em termos económicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças ela dissocia o poder do corpo faz dele por um lado uma "aptidão", uma "capacidade" que ela procura aumentar; e inverte por outro lado a energia, a potencia que poderia resultar disso, e faz dela uma relação de sujeição estrita".

Foucault, 1997, pág:119

A disciplina utilizará dois dispositivos para fazer valer o seu poder e autoridade: a arte das distribuições e a do controle da actividade.

A arte das distribuições: A disciplina distribui correctamente os indivíduos no espaço, visa a sua submissão, o contacto com os demais individuos, a troca de ideias e informações. Para isso utiliza diversas técnicas.

A disciplina às vezes exige cerca, a especificação de um local heterogéneo a todos os outros e fechado em si mesmo. Local protegido da monotonia disciplinar. Houve o grande “encarceramento” dos vagabundos e dos miseráveis; houve outros mais discretos, mas insidiosos e eficientes.

Colégios: o modelo do convento impõe-se pouco a pouco; o intervalo aparece como o regime de educação senão o mais frequente, pelo menos o mais perfeito.

Quartéis: é preciso fixar o exercito, essa massa vagabunda; impedir pilhagem e as violências, acalmar os habitantes que suportem mal as tropas de passagem; evitar os conflitos com as autoridades civis; fazer cessar as deserções; controlar as despesas.



O conjunto será fechado e cercado por uma muralha de dez pés de altura que rodeará os ditos pavilhões, a trinta pés de distância de todos os lados – e isto para manter as tropas em ordem e em disciplina e que o oficial esteja em condições de responder por ela.

Foucault, (1997),pag:.122


Com a revolução industrial, a disciplina atinge também as fábricas, sempre com o objectivo de evitar “tumultos”, optimiza o espaço para assim garantir maiores níveis de produção.

A disciplina organiza o espaço analítico. E ainda aí ela encontra um velho procedimento arquitectural e religioso: a cela dos conventos. Mesmo que os compartimentos que ela atribui se tornem puramente ideais, o espaço das disciplinas é sempre no fundo, celular. Solidão necessária do corpo e da alma, dizia um certo ascetismo: eles devem, ao menos por momentos, se defrontar a sós com a tentação e talvez com a severidade de Deus.

Foucault, (1997),pag:123


A regra das localizações funcionais vai fazer com que, pouco a pouco, os espaços que estavam geralmente livres para vários usos, se especializem para satisfazer a necessidade de vigiar e para acabar com comunicações perigosas. Além disto permite também criar espaços úteis.

Na disciplina, os elementos são intercambiáveis, pois cada um se define pelo lugar que ocupa na série, e pela distância que o separa dos outros. A unidade não é portanto nem o território (unidade de dominação), nem o local (unidade de residência), mas a posição na fila: o lugar que alguém ocupa numa classificação, o ponto em que se cruzam uma linha e uma coluna, o intervalo numa série de intervalos que se pode percorrer sucessivamente. A disciplina, arte de dispor em fila, e de técnica para a transformação dos arranjos. Ela individualiza os corpos por uma localização que não os implanta, mas os distribui e os faz circular numa rede de relações...

Foucault, (1997), pag:125

Haverá em todas as salas de aula lugares determinados para todos os escolares de todas as classes,

de maneira que todos os da mesma classe sejam colocados num mesmo lugar e sempre fixos. Os escolares das lições mais adiantadas serão colocados nos bancos mais próximos da parede e em seguida os outros segundo a ordem das lições avançadas para o meio da sala... Cada um dos alunos terá o seu lugar marcado e nenhum o deixará nem trocará sem a ordem e o consentimento doinspector das escolas.

[Será preciso fazer com que] aqueles cujos pais são negligentes e têm piolhos fiquem separados dos que são limpos e não os têm, que um escolar leviano e distraído seja colocado entre dois bem comportados e ajuizados, que o libertino ou fique sozinho ou entre dois piedosos.

Foucault, (1997), pag:126

Ao mesmo tempo a disciplina é massificadora e individualizadora. Todos se sujeitam às mesmas obrigações num lugar determinado.

Por exemplo, na arte de pôr os homens enfileirados a disciplina individualiza os corpos. Nos colégios há a conhecida ordenação por fileiras. Nesse conjunto de alinhamentos, cada aluno segundo a sua idade, desempenho, comportamento, ora ocupa uma fila, ora outra, ele desloca-se todo o tempo numa série de posições que marcam uma hierarquia.

Controle da Actividade: saber utilizar correctamente o tempo, estabelecendo horários rígidos de trabalho, sempre repetitivos e constantes.

Horário: os seus três processos são:

1) estabelecer as censuras;

2) obrigar ás ocupações determinadas;

3) regulamentar os ciclos de repetição.

As actividades são cercadas o mais possível por ordens a que se tem que responder o mais rapidamente possível.

... 8:45 entrada do monitor; 8:52 chamada; 8:56 entrada das crianças e oração; 9 horas entrada nos bancos; 9:04 primeira lousa; 9:08 ditado; 9:12 segunda lousa....

Foucault,1997, pag:128

É o quadriculamento do tempo. Trata-se de construir um tempo integralmente útil, sem desperdícios.

Elaboração temporal do acto: cada acto, cada gesto, no seu devido tempo. Por exemplo, na marcha da tropa:

... acostumar os soldados a marchar por fila ou em batalhão, a marchar na cadência do tambor. E, para isso, começar com o pé direito a fim que toda a tropa esteja a levantar o mesmo pé ao mesmo tempo...

Foucault, 1997, pag:129

É outro grau de precisão na decomposição dos gestos e dos movimentos, outra maneira de ajustar o corpo a imperativos temporais.

Corpo e gesto em correlação: impõe a melhor relação entre um gesto e a atitude global do corpo. Por exemplo a caligrafia. Foucault diz que uma boa caligrafia supõe uma ginástica - uma rotina cujo código rigoroso abrange o corpo por inteiro, da ponta do pé à extremidade do indicador.


... manter o corpo direito, um pouco voltado e solto do lado esquerdo, e algo inclinado para a frente, de maneira que, estando o cotovelo pousado na mesa, o queixo possa ser apoiado na mão; Deve-se deixar uma distância de dois dedos entre o corpo e a mesa; pois não só se escreve com mais rapidez ... O mestre ensinará aos escolares a postura que estes devem manter ao escrever, e a corrigirá seja por sinal seja de outra maneira, quando dela se afastarem. Um corpo disciplinado é a base de um gesto eficiente.

Foucault,(1997),pag:130

Articulação corpo - objecto: a disciplina define cada uma das relações que o corpo deve manter com o objecto que manipula. É uma cuidadosa engrenagem entre um e outro. É a despersonalização do sujeito que se transforma e integra numa máquina produtora.

Pouco a pouco, surge uma exigência nova a que a disciplina tem de atender: construir uma máquina cujo efeito será elevado ao máximo pela articulação combinada das peças elementares de que ela se compõe. A disciplina não é mais simplesmente uma arte de repartir os corpos, de extrair e acumular o seu tempo, mas de compor forças para obter um aparelho eficiente.

O corpo cai na categoria de objecto, um objecto constantemente em movimento, sempre a produzir e a trabalhar, até à máxima exaustão, utilizado até aos seus últimos limites. Com o passar do tempo a disciplina evoluiu em matéria de optimização. Não prevendo somente o exercício constante do corpo, agora exige uma máxima eficiência por parte dele.

A função da disciplina não pode ser confundida com a do suplício. Enquanto este sacrifica e destrói o corpo, a disciplina apropria-se dele com a finalidade de o aproveitar ao máximo.

A "correcta disciplina" é a arte do "bom adestramento". Como diz Foucault, o poder disciplinar é um poder em, que em vez de se apropriar e de retirar, tem como função maior "adestrar", ou, sem duvida, adestrar para retirar e se apropriar ainda mais e melhor.

O bom adestramento deve seguir três princípios:

Vigilância hierárquica: a vigilância permite uma espécie de controle nunca visto na humanidade. Ao vigiar o corpo, ocorre um nítido processo de total submissão e domínio integral do comportamento. É a idealização de um aparelho disciplinar perfeito, onde todos estariam submetidos à mesma observação. Tal principio é evidenciado no corpo económico, ou seja, nas fábricas. O controle de produção totalmente observável praticamente exclui o erro e o ócio, aumentando assim os rendimentos.

Sanção Normalizadora: a existência de um regime disciplinar já pressupõe um sistema penal, uma micropenalidade para a possível transgressão a qualquer norma. A disciplina actua como um “tribunal de consciência”, impondo penas leves e severas.

Na oficina, na escola, no exercito funciona como repressora toda uma micropenalidade do tempo (...), da actividade (...), da maneira de ser (...), dos discursos (...), do corpo (...), da sexualidade (...). Ao mesmo tempo é utilizada, a titulo de punição, toda uma série de processos subtis, que vão do castigo físico leve a privações ligeiras e a pequenas humilhações... levando ao extremo, que tudo possa servir para punir a mínima coisa; que cada individuo se encontre preso numa universalidade punível - punidora.

Foucault, (1997), pag:149


Tudo o que foge do padrão estipulado é penalizado, porém diferente do processo penal, a disciplina visa a correcção, as punições actuam enquanto exercícios. Toda a conduta é encaixada num grupo classificatório: é boa ou má, está correcta ou errada.

A divisão segundo as classificações ou os graus tem um duplo papel: marcar os desvios, hierarquizar as qualidades, as competências e as aptidões; mas também castigar e recompensar... a disciplina recompensa unicamente pelo jogo das promoções que permitem hierarquias e lugares; pune rebaixando e degradando. O próprio sistema de classificação vale como recompensa ou punição.

Foucault, (1997),pag:151

Exame: o exame é o produto final de todas as técnicas disciplinares, reúne a vigilância, a sanção, o controle de tempo, de espaço, enfim, uma forma de classificar, punir e corrigir. Está presente em praticamente todos os regimes disciplinares. Como referido anteriormente, o poder disciplinar é exercido com subtileza mas encontra-se altamente presente nos corpos que disciplina. O exame corresponde a esta característica, é implícito, não actua directamente no individuo, porém sanciona-o da mesma forma.

Tradicionalmente, o poder é o que se vê, se mostra, se manifesta e, de maneira paradoxal, encontra o principio de sua força no movimento com o qual é exibe. ... O poder disciplinar ao contrario, se exerce tornando-se invisível: em compensação impõe aos que submete um principio de visibilidade obrigatória. ...É o fato de ser visto sem cessar, de sempre poder ser visto, mantêm sujeito o individuo disciplinar. E o exame é a técnica pela qual o poder, em vez de emitir os sinais de ser o poderio, em vez de impor a sua marca aos seus súbditos, capta-os num mecanismo de objectivação.

Foucault, (1997),pag:156



Sociedade de Controle

A passagem da modernidade para a contemporaneidade ocasionou a mudança de um modelo de sociedade. De uma sociedade vista por Foucault como “Disciplinar”, para um modelo de sociedade identificada por Gilles Deleuze (1992) como de “controle”. Hoje, nós encontramo-nos num momento de transição entre um modelo e outro. Estamos a sair de uma forma de encarceramento completo para uma espécie de controle aberto e contínuo.

A chamada sociedade de controle é um passo à frente da sociedade disciplinar. Não que esta tenha deixado de existir, mas foi expandida para o campo social de produção. Segundo Foucault, a disciplina é interiorizada. Esta é exercida fundamentalmente por três meios globais absolutos: o medo, o julgamento e a destruição. Logo, com o colapso das antigas instituições imperialistas, os dispositivos disciplinares tornaram-se menos limitados. As instituições sociais modernas produzem indivíduos sociais muito mais moveis e flexíveis que antes. Essa transição para a sociedade de controle envolve uma subjectividade que não está fixada na individualidade. O indivíduo não pertence a nenhuma identidade e pertence a todas. Mesmo fora do seu local de trabalho, continua a ser intensamente governado pela lógica disciplinar.

A forma cíclica e o recomeço contínuo das sociedades disciplinares modernas dão lugar à modulação das sociedades de controle contemporâneas nas quais nunca se termina nada mas exige-se do homem uma formação permanente.

Enquanto a sociedade disciplinar se constitui de poderes transversais que se dissimulam através das instituições modernas e de estratégias de disciplina e confinamento, a sociedade de controle é caracterizada pela invisibilidade e pelo nomandismo que se expande junto às redes de informação.

Se nas sociedades disciplinares o modelo Panóptico é dominante, implica o observador estar de corpo presente e em tempo real a observar-nos e a vigiar-nos. Nas sociedades de controle esta vigilância torna-se rarefeita e virtual. As sociedades disciplinares são essencialmente arquitecturais: a casa da família, o prédio da escola, o edifício do quartel, o edifício da fábrica. Por sua vez, as sociedades de controle apontam uma espécie de anti-arquitectura. A ausência da casa, do prédio, do edifício é fruto de um processo em que se caminha para um mundo virtual.

É importante perceber que na sociedade de controle, o aspecto disciplinar não desaparece, apenas muda a actuação das instituições. Os dispositivos de poder que ficam circunscritos aos espaços fechados dessas instituições passam a adquirir total fluidez, o que lhes permite actuar em todas as esferas sociais. Entre os princípios norteadores desta dinâmica, destaca-se a abolição do confinamento enquanto técnica principal.

As técnicas disciplinares originadas a partir do séc. XVIII destinavam-se a garantir que os indivíduos – por meio dos seus corpos – fossem submetidos a um conjunto de dispositivos de poder e de saber, baseados na vigilância permanente, na normalização dos seus comportamentos e na exposição a exames. Como forma de se produzir verdades sobre eles mesmos, essas práticas tinham como objectivo a extracção máxima das potencialidades e, portanto, as instituições como escolas, fábricas, hospitais – entre outros – cumpriam um papel fundamental na implementação desses mecanismos, com o objectivo de tornar os indivíduos dóceis.

É neste sentido que a noção de confinamento, amplamente utilizada a partir do séc. XVIII, norteadora do funcionamento desses estabelecimentos, deixou de ser a estratégia principal do exercício do poder. O controle ao contrário, ultrapassa a fronteira entre o público e o privado. Aqui, reside um dos aspectos fundamentais na construção da passagem da sociedade disciplinar para a de controle: há um processo de instauração da lógica do confinamento, em toda a sociedade, sem que seja necessária a existência de muros que separem o lado de dentro das instituições do seu exterior.

Há uma vigilância contínua, concretizada pela propagação das câmaras espalhadas por toda a parte: no comercio, bancos, escolas e até mesmo nas ruas. Isto traz a dimensão da sociedade auto-vigiada, idealizada por Jeremy Bentham, cujo Panóptico expressa a sua concepção arquitectónica. Uma vigilância intensificada pela disseminação de dispositivos tecnológicos de vigilância presentes até mesmo ao “ar livre”. Todos podem e querem espiar todos. Trata-se da reinvenção do Panóptico benthaniano que passa a actuar com o objectivo de transformar, de maneira extensiva e intensiva, os modos de viver, pensar e agir dos indivíduos.

Se a principal premissa da sociedade disciplinar era fazer com que o indivíduo modelasse o seu comportamento. A partir da possibilidade de estar a ser vigiado por alguém (inspector), essa perspectiva transmutou-se. O que presenciamos na sociedade de controle é que houve uma espécie de incorporação da disciplina. A tal ponto, que os indivíduos podem estar sob os efeitos dos dispositivos disciplinares, independente, da presença de algum tipo de autoridade investida de poderes capazes de impor os procedimentos de poder e de saber.

A sociedade de controle redimensiona e amplifica os pilares constituintes da sociedade disciplinar.

Como argumenta G. Deleuze, a passagem de uma sociedade disciplinar a uma sociedade de controle, tem como estratégia fundamental esvaziar a imagem da sua virtualidade, para a tornar pura informação, parte dos dispositivos de vigilância e monitorização. Ao atribuir à imagem a potencialidade da informação, deslocamos a abordagem do campo de representação, passando a compreende-la enquanto a própria expressão dos acontecimentos. “Não creio que os media tenham muitos recursos ou vocação para captar um acontecimento. Primeiro, eles mostram com frequência o começo e o fim, ao passo que um acontecimento, mesmo breve, mesmo instantâneo prolonga-se” (Deleuze, 1992; Pág:198). Seja na cobertura de uma guerra, seja acompanhando as rotinas exibicionistas dos reality shows, as imagens que nos chegam parecem não se interessar mais pelo acontecimento, mas apenas em reafirmar o seu olhar omnipresente, sob o qual tudo se passa e nada passa despercebido.

Um fenómeno recente que tem chamado a atenção de diversos estudiosos é os referidos reality shows. Tais programas expõem os seus participantes a situações limites e dão margem a uma série de análises. Um bom exemplo disso é o Big Brother que surgiu em 1999, na Holanda e foi criado pela produtora Endemol, uma das maiores empresas de entretenimento da Europa. O nome Big Brother foi inspirado no livro “1984” do escritor inglês George Orwell. Neste livro, todos os habitantes de um país fictício são vigiados diariamente, por câmaras que funcionam como olhos do governo. O autor alerta para o perigo de estarmos a caminhar para uma sociedade controlada por câmaras. Passados pouco mais de cinquenta anos da publicação do romance de Orwell, o receio do totalismo cedeu lugar à sedução, através da invasão de câmaras em programas televisivos.

Em 2000, o programa Big Brother começou a ser exportado para outros países, como Alemanha, Espanha, Estados Unidos da América, Inglaterra, Portugal, Suiça, Suécia e Bélgica.

Desde o início das sociedades modernas, os meios de comunicação contribuíram decisivamente para a construção da subjectividade dos seres humanos. Sempre em sintonia com o surgimento e consolidação das sociedades capitalistas modernas, os meios de comunicação desenvolveram-se de forma espantosa. É impossível pensar o mundo contemporâneo, sem levar em conta o papel dos “mass media”. Um dos traços fundamentais deste mundo contemporâneo é exactamente o inesgotável fluxo de imagens e de conteúdos simbólicos, disponibilizados pelos meios de comunicação a um número cada vez maior de pessoas, e que de certa maneira, conformam a realidade, as relações sociais e a subjectividade individual.

A realidade do final do século exige cada vez mais que os sujeitos saibam lidar com uma imensa gama de informação que invadem diariamente a sua vida quotidiana, de uma forma desconhecida para as gerações precedentes. Lidar com o impacto deste fluxo acelerado de informações e, principalmente dar-lhe um significado, ou seja, interpretá-las integrando-as na sua visão do mundo, é hoje uma tarefa inevitável dos sujeitos modernos

(Guareschi, 2000, pág.43).

Uns dos aspectos a serem considerados no Big Brother são os valores implícitos no programa. Pode-se perceber estes valores através da sua estrutura e funcionamento, tais como: confinamento, vigilância, exclusão, fama, dinheiro, esforço, sorte, culto do herói, “salve-se quem puder”, negação do sofrimento psico-social, “cada um por si e Deus por todos”.

A vigilância, a fama e o confinamento são as características que conferem o carácter inédito do programa e ficam em maior evidência para o telespectador.


Vigilância

A pergunta que se faz é, o que ocorreu, para que saíssemos do horror da vigilância, para imergirmos na apoteose voyerista, de contemplar supostamente em tempo integral, um grupo de indivíduos exibicionistas confinadas num espaço marcado por câmaras e microfones?

O controle, na sociedade contemporânea, é exercido de modo “glamourizado” pela indústria cultural. Assim substituiu-se a guilhotina e a violência física por técnicas de controle social formadas dentro das ciências humanas e sociais, pela psicologia, psiquiatria e mais recentemente pelos meios de comunicação de massas. Em vez de usar a força física para fazer os corpos indóceis padecerem em razão de não se ajustarem, o que ocorre é tornar interna a ideológica exercida pelos meios de comunicação de massa, que produzem uma certa forma de ser, de viver, de pensar e de sentir.

A estratégia actual é construir subjectividades, de forma a que estas se enquadrem no modo de vida oferecido pela sociedade, pois de acordo com Foucault, o poder moderno exerce-se na produção e na repressão.

Hoje, os vigias do “Grande Irmão”, são todos os indivíduos, que auxiliados pela edição dos media ficam extasiados, fascinados diante da televisão, vigiando e controlando através dos votos (pois é um programa interactivo), os passos dos doze participantes anónimos. O que, antes era temido – o controle e o vigiar – e também o que era protegido – a privacidade e a intimidade – tornam-se objectos de fascínio. Isto evidencia-se no primeiro imperativo para participar do show de realidade – Big Brother - que é a imposição da restrição do privado.

Oferece-se aos participantes uma casa bem equipada em que se encontram 24 sobre 24 horas sob vigia, para que se tornem famosos, todavia, caso sejam excluídos e não ganhem o prémio máximo de cem mil euros, já tiveram a oportunidade de conquistar a fama. Troca-se desta maneira, a privacidade pela fama.

A sociedade contemporânea é descrita por Debord (1994), como a sociedade do espectáculo, que substitui o lema “Penso logo existo”, por um outro ditado: “sou visto, logo existo” (Quinet, 2002). Ainda segundo este autor, a sociedade é dominada pelo olhar, que é omnividente sob diversas formas, que vão desde a proliferação dos programas televisivos de voyerismo e exibicionismo explícitos, até à difusão epidémica da vigilância, que multiplicam as câmaras encontradas a cada passo do indivíduo. Vive-se hoje, numa sociedade escópica que tem como espectáculo, a disciplina e controle. O olho que vigia e pune, é o mesmo que possibilita a fama.

A fama parece ainda ser inseparável de um outro vínculo: a dor de se ter de separar do privado, da vida rotineira, para se lançar rumo a ser objecto do olhar do outro, desgarrado e desenraizado da sua forma de ser.

Esta sociedade escópica impõe uma existência vinculada à visibilidade, e consequentemente à celebridade, mas por outro lado, amplia cada vez mais a vigilância e o controle sobre cada indivíduo. Quase já não é possível sair de casa sem nos depararmos com os dizeres “sorria, você está a ser filmado”. Verdade ou mentira, não importa, pois a frase faz existir um olhar invisível pousado no indivíduo. A instância desse olhar atribuído ao outro, é chamado por Freud de superego, que tem como um dos seus atributos vigiar e punir o indivíduo. A sociedade escópica, ao utilizar esta estrutura subjectiva, multiplica os seus dispositivos de vigilância electrónica e transforma-nos todos em objectos vistos e controláveis. A transparência, passa assim, a ser um ideal.


Confinamento:

Um dos meios utilizados pelos “mass media” para apresentar o programa “Big Brother” como um show de realidade, é afirmar que o confinamento deve traduzir sentimentos verdadeiros, pois não dá para protelar nem para recalcar emoções ou indisposições com os companheiros de cela. Na verdade, o confinamento sob esta perspectiva mantém uma tensão. De um determinado ponto de vista, poderia ser considerado um grande engano, pois como consta nas regras do programa os participantes são vigiados 24 horas por dia. Mas, “as pessoas uma vez observadas pela câmara começam a fazer poses, construindo uma real e própria encenação (Sodré, 1994, pág.36). “A partir desta fase, a real e própria encenação pode ser entendida como idealizada.

Portanto, de outro ponto de vista, o desejo pela fama entendido “como a construção da auto imagem pela projecção de uma imagem para os outros” (Coelho, 1999), já produz uma amputação da subjectividade trazendo como um dos resultados, o impedimento de accionar instâncias psíquicas superiores.

Assim, o que se mostra, não é fingimento ou teatro, pois a subjectividade sem a restrição da lei basta para se conformar as regras impostas pelo programa, e representar a sua identidade ideal, já capturada e ávida pela fama. Portanto, a vigilância já é um confinamento que determina uma forma de ser, uma vez que, sob vigilância, no palco, com os holofotes que potencializam a fama, há a transmutação de um ser pensante para um ser de origem. É bom lembrar, que a situação dos participantes dos reality shows, expostos a uma câmara 24 horas por dia, e cientes de que a sua performance vai desembocar na sua exclusão ou permanência, tanto pelos seus parceiros como pelos telespectadores, são os elementos que confirmam a prisão do ser.

Uma das propostas do Big Brother é a de transformar a privacidade em espectáculo. Importa salientar, que o que é apresentado na tela, não é a privacidade nua e crua de ninguém, pois a direcção do programa selecciona alguns fragmentos de seu interesse. A partir disto, a intimidade é construída com música de fundo que sublinham ou criam climas, maquinados com lentes inusitadas que transformam o banal em inusitado. A intimidade exposta, é limitada não só pelas mudanças de comportamento já produzidas, via mudanças de valores da sociedade espectacular, regida pelos princípios do mercado, pelas regras do programa, como também elos recursos dos mass media.

O vencedor é o que padroniza um modelo de ser na cultura actual. É aquele que perde a intimidade e a identidade, aquele que se afasta dos seus e se submete a uma experiência de “prisão – show”, é julgado e sentenciado a cada comportamento e apresenta maior tolerância à privação. Enfim, aquele que muito perde, e no final é referenciado como vitorioso.

A visibilidade “total” a que se submete um cidadão hoje em dia pode ser uma armadilha. A nossa sociedade vem criando cada vez mais uma condição de transparência dos seus participantes e, muitas vezes, estamos reivindicando para sermos modernos, a visibilidade ampliada, como um direito, de alguns que permanecem na obscuridade e à margem da história recente ou num passado considerado longínquo.

No entanto, convém lembrar que somos nós os produtores e produtos desta sociedade que criámos. Não somos simples marionetas deste jogo de forças, mas co-autores no nosso silêncio, na “naturalidade” com que encaramos este estado das coisas.      




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