Por intermédio dos espaços virtuais que os exprimiriam, os coletivos humanos se jogariam a uma escritura abundante, a uma leitura inventiva deles mesmos e de seus mundos(...) poderemos então pronunciar uma frase um pouco bizarra, mas que ressoará de todo seu sentido quando nossos corpos de saber habitarem o cyberspace: “Nós somos o texto.” E nós seremos um povo tanto mais livre quanto mais nós formos um texto vivo.
Pierre Lévy

domingo, 11 de dezembro de 2011

Tema de redação : futebol

Leia os textos abaixo para escrever sua redação:

Texto 1 

'Democracia Corinthiana' descentralizou poder no clube
José Paulo Florenzano, autor do livro "A democracia corinthiana"


A "Democracia Corinthiana" veio a lume no contexto da redemocratização, mais precisamente, na primeira metade dos anos 80, quando o presidente Waldemar Pires promovia no clube a abertura política, descentralizando o poder, modernizando a administração e renovando a classe dirigente.

Iniciativa refletida na nomeação para o departamento de futebol de um jovem sociólogo, Adílson Monteiro, disposto então a suprimir a distância entre comandantes e comandados, substituindo a pirâmide hierárquica alicerçada no regime de mando e obediência pelo círculo democrático baseado no ideal da isonomia, isto é, na igual participação dos atletas nas decisões relacionadas ao elenco.
Sem dúvida, o quanto a prática se manteve coerente com o ideal, até que ponto ela foi capaz de realizá-lo, continua questão controvertida.
Em torno dela, não por acaso, surgiram e se cristalizaram duas interpretações diametralmente opostas: de um lado, a versão que retrata a "Democracia" como simples desgoverno, de outro lado, a versão que a idealiza como uma experiência sem equívocos ou incoerências.
Posto nesses termos, porém, o debate não permite apreender o caráter dinâmico e complexo de um movimento multifacetado, que procurava conciliar de forma contraditória os valores econômicos do futebol-empresa com os princípios políticos do autogoverno da equipe.
Antinomia que não o impedia, no entanto, de se abrir e projetar em várias direções, estabelecendo pontes, ocupando espaços, compartilhando experiências.
De fato, a "Democracia" acampava com desempregados no parque Ibirapuera, trocava informações com os operários no sindicato de São Bernardo e Diadema, filiava-se aos partidos de oposição ao regime militar e participava nas "Diretas Já".
Em contrapartida, reunia-se no Bar da Torre no Parque São Jorge, celebrava os Jardins da Babilônia nos shows de Rita Lee, incursionava pelo circuito boêmio da metrópole em busca da energia transgressora que a mantinha viva e desperta e a constituía no reduto por excelência da contracultura do futebol.
Com efeito, a partir da interlocução com os sujeitos coletivos e com base no resgate da tradição de autonomia do jogador brasileiro, o projeto alvinegro foi adquirindo contornos mais nítidos.
Definindo-se no combate à série de aspectos interligados no modelo hegemônico nos clubes de futebol: autoritarismo nas relações sociais de trabalho, gestão paternalista adotada pelos dirigentes, excesso atlético que privilegiava os exercícios físicos em detrimento dos do pensamento, regime de concentração que conduzia o jogador a se abstrair da vida social para satisfazer as exigências da alta performance.
Para Sócrates, Wladimir e Casagrande, tratava-se, porém, de empreender o caminho inverso e exortar o atleta a se engajar nas questões cruciais do seu tempo a fim de ampliar os limites dentro dos quais ele se transformava no autor de si mesmo.
Eis aqui o projeto político da "Democracia Corinthiana": reconciliar corpo e alma, religar o atleta ao cidadão, reunir a dimensão estética do futebol concebido como arte à dimensão ética do futebol exercido como prática de liberdade.


Texto 2

Um domingo paradoxal
Sírio Possenti, professor de Linguística da Unicamp

Foi muito chato ver as primeiras notícias - não nos jornais, que, para isso, estão ultrapassados, mas nas TVs e na internet. Era dia de Corinthians. Mas o Doutor Sócrates tinha se rendido a umas bactérias, depois de ter minado o fígado com sua cervejinha. Fazia parte de seus planos conversar sobre o tema com os jovens, parece. Mas não teve tempo. Mais do que ninguém ele poderia fazer um contradiscurso à propagandaiada de cerveja, mesmo que fosse apenas por sua estética: o alvo da propaganda é o jovem burro.
Sua vida foi curta para os padrões atuais, mas, ao que dizem seus amigos, foi vivida com intensidade. Viveu mais do que muitos que duram mais tempo. A vida não é justa: há tanta gente que não faz falta nenhuma, mas foi ele quem morreu.
Pensando bem, foi bom Sócrates não ter visto a final do campeonato, apesar do título do Corinthians, com cuja torcida ele dizia sempre que aprendeu muito. Com o povão, não com o clube! Se assistisse ao jogo, talvez morresse de chateação, vendo a bola apanhar na bonita tarde do Pacaembu. Afinal, ele fizera um time raçudo jogar quase como um Palmeiras que tivesse mais de um Ademir da Guia (jamais como o de Valdívia e Felipão, digno rival nessa feia partida).
Sócrates mostrou que se pode jogar futebol até mesmo sem ser atleta, no sentido besta que a palavra tem hoje, desde que se tenha cabeça (coisa não muito bem distribuída).
(...)
Vai, Magrão!


Texto 3
Sócrates e democracia
Wagner Fernandes

A ditadura da morte,

a única que os homens não podemos derrubar,

levou Sócrates Brasileiro, brasileiro do mundo.


A outra ditadura

havia caído aos seus pés.

A da morte, ele não conseguiu driblar.


"Ganhar ou perder, sempre com DEMOCRACIA!"

Sempre, sempre, com democracia.

A democracia do atleta -doutor,

alto de gigantes pés pequenos.


No campo, foi grande entre os grandes,

não boiadeiro da boiada de hoje.

Boiadeiro entre boiadeiros

Cerezo, Falcão, Zico, Rivelino ...


Democrata nas vitórias.

Democrata nas derrotas.

Se a política apropriou-se do esporte,

com Sócrates, o esporte apropriou-se da política.

Democracia corintiana e títulos.


Soube ser ídolo e responsável,

atleta e cidadão num só corpo,

braço ao alto dentro e fora do campo.


Se eu fosse o dono do microfone, diria:

O mundo perdeu.

O mundo perdeu.

Agora, de calcanhar:

o mundo perdeu!




Texto 4


PROPOSTA DE REDAÇÃO

O engajamento político, a formação educacional, o envolvimento com questões sociais e/ou ambientais são preocupações, muitas vezes, esquecidas por grandes ídolos do futebol nacional. Sócrates parece ser uma exceção na história de nosso futebol. Engajado desde os tempos de jogador até a sua recente enfermidade, sempre valorizou o investimento em educação e a defesa da democracia como essenciais para mudar o país.
Hoje, o grande ídolo da torcida brasileira é Neymar, brilhante jogador que, fora do campo parece se preocupar exclusivamente em promover sua autoimagem. Numa sociedade de imagem, espetáculo e consumo, o ideal de Sócrates parece realmente ter sido esquecido.
O futebol, afinal, deve ser considerado um modo de transformação da consciência social ou apenas uma maneira de entreter o povo e promover o sucesso de seus ídolos?

Considerando as afirmações acima, redija um texto dissertativo-argumentativo sobre o tema:
Futebol: espetáculo egocêntrico ou instrumento de transformação?
Limite: de 20 a 30 linhas
Dê um título
Estrutura sugerida
- Tema + Tese (síntese dos argumentos)
- Desenvolvimento do primeiro argumento
- Desenvolvimento do segundo argumento
- Encerramento do texto, com resposta clara ao tema. 

Um comentário:

Anônimo disse...

Excelente proposta de redação, tanto pelo tema quanto pelos textos motivadores. Parabéns!

Acredito o assunto esporte estará presente no ENEM deste fim de semana.

Robson Hasmann

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